28 de dezembro de 2019

Viajar

O que posso dizer sobre viajar?
É aquela actividade extremamente publicitada e amplamente divulgada como tendo atributos mágicos que nos podem abrir horizontes, conhecer o mistério que jaz além da nossa imaginação, fazer a nossa vida valer a pena, marcar e dar significado a uma existência mundana.
Como outras pessoas, eu também já investi o meu tempo e dinheiro em viagens, o que equivale a dizer que investi tempo a dobrar, pois o dinheiro corresponde ao tempo despendido para o ganhar.
Antigamente falava-se em força de trabalho, mas hoje em dia com as máquinas a fazer o trabalho pesado por nós, acho que faz mais sentido dizer que vendemos o nosso tempo para ganhar dinheiro.
Durante os meus primeiros anos de independência fiz questão de investir em viagens nacionais ou internacionais, de forma viver uma vida menos ordinária ou mundana e graças a esse investimento hoje posso concluir que viajar, da forma como nos vendem o conceito, é um desperdício a dobrar do nosso tempo.
Exacto, viajar é aquele BMW brilhante e cheiroso que nos faz contrair empréstimos e gastar anos da nossa vida a pagar algo que nos oferece um conforto maior que um Renault Clio, mas que nos leva exactamente aos mesmos lados e serve para a mesma coisa. O conforto extra não vale o dinheiro extra que se paga, o seu custo de oportunidade é muito elevado.
Sabem o que é o custo de oportunidade? Foi das coisas mais práticas que aprendi em Economia.
  • Traduz-se naquilo que abdicamos por não utilizarmos esse dinheiro para comprar outras coisas, artigos/objectos/serviços que poderíamos adquirir.
Vamos supor que uma manga custa o dobro de uma laranja, o custo de oportunidade da manga são então duas laranjas, ou por outras palavras, para comer uma manga abdico de comer duas laranjas. 
O que preferem?
  • Se duas laranjas me nutrirem mais/melhor que uma manga, então, na minha opinião prática/pragmática, a exoticidade da manga não compensa o seu custo de oportunidade.
E viajar?
  • Bem, viajar por viajar tem um custo de oportunidade elevadíssimo porque mais não é que a deslocação no espaço físico. Viajar em si não tem significado nenhum, o que dá significado ao nosso tempo são os momentos e esses constroem-se independentemente do local físico onde nos encontramos.
E os momentos são significativos se forem partilhados com pessoas por quem nutrimos sentimentos (e já agora com reciprocidade), ou sozinhos, se buscamos introespecção.
Viajar saí caro, pois além do tempo passado no destino, perde-se também o tempo passado a trabalhar para ganhar o dinheiro que gastaremos nas viagens, estadias, alimentação, etc, bem como o tempo a chegar e voltar desse mesmo destino.
Já fizeram as contas? 
  • ‘’Ah, mas tens a oportunidade de ver sítios diferentes!’’
Não vês nada. No fundo não vês porque tudo é diferente e tudo é igual.
Parece filosofia barata, mas é a verdade. A areia do Porto é diferente da areia de Lisboa, a pessoa de Santarém é diferente da pessoa de Aljustrel, até o meu vizinho de cima é diferente do meu vizinho de lado, tudo é diferente à nossa volta, não é preciso ir 5000km numa determinada direcção para ver diferenças.
E no fundo é tudo igual porque a areia é areia, a água é água, as leis da natureza são as leis da natureza, as motivações humanas são as mesmas em todo o lado, vais ver cobiça, ganância, desejo, pobreza, simpatia, compaixão, vais identificar os padrões e ver além das aparências e concluir que viajaste mas este mundo é mais do mesmo que conheces, viste as mesmas coisas com outra aparência/capa.
E neste mundo globalizado isto ainda é mais verdade, os resorts servem a mesma comida, passam a mesma música, falam a mesma língua, usam a mesma loiça do IKEA, os mesmos óleos para fritar, não há nada de autêntico num Mcdonalds na Jamaica. É mais do mesmo.
Eu percebi isto quando fui ao Brasil e me encontrei numa praia perto de Porto de Galinhas chamada Maracaipe. A praia era tirada de um filme, paradisíaca, mar com ondas como eu gosto, coqueiros à beira-mar, etc, mas comparando com a Costa Vicentina, estava ela por ela.
Só a companhia poderia tornar aquele momento especial e não a natureza em si, só a condição em que eu lá estava e não o simples facto de lá me encontrar fisicamente.
Acontece o mesmo quando vou à praia com o meu filho. Ele quer lá saber se é nas Baamas ou em Caxias, ele quer areia e mar, e ficamos lá duas horas intensíssimas que parecem nunca mais acabar,  deixando-nos cheios de vontade de ir para casa almoçar e tirar uma sesta. Fazia diferença se fosse nas Baamas?
Se me metessem numa spaceshuttle a caminho de outro sistema solar, congelando o meu corpo numa cápsula criogénica ao bom estilo Sci-Fi e eu acordasse 1000 anos depois, noutro sistema solar, valeria a pena?
Seria a viagem da minha vida, mas para quê? Para ver um monte de pedras, gases, estrelas como eu tenho aqui, diferentes no aspecto mas iguais por dentro?
Somos todos matéria resultante das explosões estrelares, temos a composição de sóis dentro de nós, quão diferentes podem ser as coisas a milhões de anos luz daqui?
E todas as pessoas que eu perdi nesse sono milenar? Momentos que não partilhei com seres que me dizem algo a nível emocional/sentimental? Isso sim é a matéria dos momentos, não a composição física do lugar onde me encontro.
Um sítio não faz um momento, as pessoas que estão contigo sim, tu sim, o que carregas dentro de ti sim. Eu seria feliz numa cabana se tivesse amor e infeliz num palácio se tivesse desdém…Feliz na Musgueira se tivesse os meus, infeliz em Saint-Tropez se estivesse sozinho.
Então não vale a pena viajar? Nem um pouco?
  • Vale a pena deslocarmo-nos fisicamente se isso fizer sentido, se for para criar momentos com alguém ou para procurarmos um sitio longe de actividade humana para buscar introespecção, mas temos de analisar o custo de oportunidade…se ir a Nova Iorque representar 4000€ mais as horas extras no trabalho para pagar os juros do crédito, será que não compensa ir para mais perto e ter mais dias extra para gozar com aqueles que enchem a vida de significado?
Eu já estive em Nova Iorque, então sei do que falo…é mesmo só mais uma cidade, literalmente, tivesse eu o dinheiro de volta e ficaria um mês aqui de férias, 30 dias sem trabalhar e só a criar momentos!
E um retiro espiritual num mosteiro Budista no Tibete?
  • A espiritualidade não está no Tibete, está em ti. Se precisas de ir ao Tibete procurar espiritualidade então não vais encontrá-la…mas és capaz de tirar umas selfies bacanas com um monge careca para pores no teu Insta e ganhares uns likes.
E visitar um amigo ou familiar que mora 3 países ao lado? 
  • Isso pode valer a pena se for alguém por quem nutras carinho, além de que se tiveres lá sítio para ficar não precisas de vender tanto do teu tempo para ganhares dinheiro para gastares em estadias e alimentação.
Escolhe com cabeça, analisa o teu custo de oportunidade, faz o teu tempo valer a pena, porque tempo é tudo aquilo que temos nesta vida.
Se queres muito viajar então talvez seja porque queres fugir de algo, da tua vida, da tua rotina. Mas não vais encontrar o que procuras porque estás a procurar fora de ti, e o que te deixa infeliz aqui vai-te acompanhar para todo o lado porque essa insatisfação está dentro de ti.
Viajar é simplesmente a deslocação física no espaço, os momentos criados são independentes dessa deslocação.

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