Comer e dormir são necessidades essenciais pois morremos se não as
fizermos, mas a partir do momento em que uma actividade recreativa como a
masturbação atenua e modera os instintos sexuais e os nossos impulsos físicos,
acho que podemos remover o sexo do mesmo patamar que comer e dormir.
É básica sim, porque a reprodução sexual (a mais comum no reino animal)
é essencial para a sobrevivência de uma espécie, mas não para a
sobrevivência de um indivíduo em particular.
É por aqui que quero pegar, o sexo pode trazer felicidade, harmonia,
prazer, tranquilidade ou ser algo positivo na nossa vida se for feito de uma
forma completa, da mesma forma que pode trazer o oposto. Fazer sexo só por
fazer, porque ‘’é uma necessidade básica’’ à qual temos de estar sujeitos, é
pouco, é redutor, aplicável à masturbação, não ao sexo, que tem que ser algo
mais do que isso.
Sexo quando não tem em conta uma diversidade de factores, entre os
quais os sentimentos e emoções da outra pessoa (bem como os nossos), pode levar
à perpetuação de um ciclo de miséria e sofrimento onde
instintos/fragilidades/carências ou ressentimentos se sobrepõem ao equilíbrio
mental e psicológico que advém do sentimento de partilha/pertença que a
intimidade física com alguém que nos diz algo traz.
Não me refiro só a uma ‘’má foda’’ ou a uma pessoa mais desequilibrada
que fica apegada a nós e depois não nos larga ou nos persegue…refiro-me a um
perpetuar de encontros e relações (com pessoas diferentes) que acabam por ter o
mesmo desfecho, de tal forma que parece que escolhemos sempre o mesmo ‘’tipo de
pessoa’’, ou que ‘’os homens/mulheres são todos iguais’’.
Ninguém é igual a ninguém e embora biologicamente haja semelhanças nos
géneros que nos puxem para certo tipo de escolhas, mais perto da verdade será
assumir que esse desenrolar ‘’infeliz’’ do envolvimento resultou de uma escolha
‘’pobre’’ da nossa parte. O problema está em nós e a forma como fazemos e
procuramos o sexo pode ser um bom indicativo desse problema.
A busca por sexo incompleto, mera satisfação momentânea através de
relações físicas intimas desprovidas de conforto/cumplicidade
emocional/psicológica, revelam uma personalidade/ego/psique/lado emocional
frágil, incompleto, sem consciência do seu valor próprio.
Fazer por fazer dá mau resultado em geral, faz-nos acabar e desejar
que pudéssemos estalar os dedos e não estar mais ali, ou que a outra pessoa desaparecesse,
e isso não é bom/positivo/pleno/completo.
Imagino que para as mulheres seja menos frequente estar deste lado da
experiência, acho que tendem a escolher os seus parceir@s com mais sabedoria ou
objectivo, nós homens é que temos mais este costume de deitar por deitar.
Não nego que fazer por fazer pode ter uma função importante e um
contributo positivo numa fase inicial da nossa viagem, acumular experiência que
só pode advir da intimidade física e emocional e que nos traz autoconhecimento.
Aprender a saber do que gostamos, bem como do que os outros gostam e lhes
agrada, saber cativar aqueles por quem nos encantamos ou queremos encantar.
Nesta fase inicial (adolescência) existe um irromper de emoções que
turvam o nosso julgamento e embarcamos nestas viagens onde tudo se mistura e de
onde mais tarde devíamos tirar boas lições e amadurecer. Infelizmente nem
sempre tiramos as melhores conclusões destas primeiras experiências sexuais e
elas nem sempre contribuem para o amadurecimento e fortalecimento da autoestima
e valor próprio, podendo às vezes deixar-nos mais frágeis e fechados, dentro do
nosso casulo emocional.
Por vezes aprendemos que expor os nossos sentimentos pode ser doloroso
e sentimo-nos ridículos/fragilizados perante outros, levando isto a um
sentimento de inferioridade, de inaptidão. São coisas que deixam marca no nosso
ego e que carregamos para outros campos da nossa vida.
Fica mais fácil usar e ser usado, sem sentimentos à mistura, depreende
o nosso subconsciente. Daí a importância de nos conhecermos e de sabermos o que
queremos e o que precisamos, bem como da pessoa que temos à nossa frente e o
que ela pretende deste acto e de nós.
Tem de haver um equilíbrio, não é correcto alguém que quer unicamente
sexo e que está presente apenas fisicamente, cativar e dar a entender ao parceir@
deste jogo que quer algo mais, conscientemente ou não, enganando e semeando
outros sentimentos/expectativas de forma a obter aquilo que pretende.
Somos responsáveis por quem cativamos (como a raposa disse ao
principezinho) e a história do ‘’é maior e vacinado’’ não corresponde à
realidade porque o coração tem razões que até a própria razão desconhece.
Há coisas que por mais que conversadas e verbalizadas não são assimiladas ou
compreendidas porque o coração fala uma linguagem diferente do intelecto.
Se estivermos mesmo apaixonados por alguém sujeitamo-nos a coisas que
não admitiríamos de outra forma, especialmente se não tivermos autoestima,
fruto deste ciclo perpetuado que vem detrás.
Portanto, quando sabemos que alguém nutre sentimentos por nós e o contrário
não acontece, torna-se hipócrita agarrarmo-nos à desculpa de ‘’ela sabia que eu
só queria sexo, deixei bem claro’’, pois estamos a usar e a aproveitarmo-nos de
uma fragilidade.
- É o mesmo que levarmos água junto de uma pessoa que morre à sede e cobrarmos 100€ por litro…é o mercado, a oportunidade, o capitalismo…é uma merda.
- É ouvir histórias de pessoas que se prostituem em países pobres por um pacote de bolachas para alimentar os filhos.
O sexo não tem que ser perfeito, mágico, cor-de-rosa ou feito com a
cara metade, tem que ser o que é, mas tem que nos fazer sentir bem. Não
acredito na instituição do casamento, não sei descrever o que é o amor e não
sei o que é isso de caras metades, não quero complicar ou sobrepensar o que tem
de ser simples, instintivo e sentido.
Sexual healing como o Marvin Gaye cantou, sexo tem de ser natural mas
temos que lhe por uma dose de plenitude, não pode ser só a satisfação de uma
necessidade básica porque somos mais do que puro instinto. Há toda uma pessoa por detrás de um corpo que,
se conhecermos melhor, talvez nos faça perder a vontade de ter sexo ou quem
sabe até nos pode dar mais.
Nesse sentido acho que nós ‘’humanidade’’ chegámos a um ponto de
evolução tecnológica que agudizou esta fenda, este ‘’gap’’, através do uso de
programas que encorajam um jogo de máscaras e ilusões, redes sociais que
escondem ainda mais quem somos, onde nos esforçamos para ser aquilo que
queremos que os outros pensem que somos ou que queremos parecer aos olhos de
outrem. Isto faz com que seja mais difícil o nosso amadurecimento e
desenvolvimento emocional pleno, bem como descobrir quem somos e o que realmente
queremos/precisamos.
Pensem assim, por mais experiência que a gente adquira, ficamos sempre
ansiosos/nervosos, com o coração na boca e as palavras travadas na garganta
quando chega o momento de pedir à pessoa que realmente nos cativa o seu número
de telefone ou de a convidarmos para sair. Não deixa de ser engraçado o
contraste colossal entre agir como guru do sexo, que põe e dispõe quando está
(intimamente) com pessoas que emocionalmente lhe dizem nada, e a criança
insegura e receosa perante alguém que mexe connosco a nível emocional.
Aprendemos todos os dias a desassociar as pessoas dos seus corpos como
se fosse possível uma coisa viver sem a outra. Somos mais do que estes corpos,
precisamos de mais do que um corpo para nos sentirmos bem, a satisfação meramente
física não nos faz sentir completos e trabalhar para nos satisfazermos ‘’às
partes’’ faz-nos sentir miseráveis e a viver uma vida desprovida de sentido, conexão,
afecto. Isto despersonaliza-nos e torna-nos máquinas emocionais, e a frustração
daí resultante irá irromper do nosso subconsciente e ter consequências nefastas
numa qualquer outra área da nossa vida.
Não acreditam? Contratem uma acompanhante de luxo, a mais bonita e
atraente que puderem encontrar, aquela que vocês nem em sonhos pensavam que poderiam
ter. Paguem e tenham sexo, quando terminarem e forem à vossa vidinha recordem o
momento e vejam com que sensação ficam.
Procurem mais, sejam mais plenos e completos, vocês merecem se fizerem
por isso, tal é o caminho do amadurecimento emocional que alguns chamam de
espiritualidade.



