19 de outubro de 2017

No mundo dos Super-Homens

Ao ver o filme do Super-Homem apercebi-me que o homem é mesmo isso...super!
Não há ninguém no planeta terra que o iguale, ele é o mais forte, o mais rápido, voa, enfim...mega boss!
Mas se o planeta dele (Krypton) não tivesse explodido, ainda fosse populado e o Super-Homem voltasse para lá, ele seria mais um...mais um a voar, a levantar carros e a realizar todas as façanhas que aqui são colossais.
E se nós nos metêssemos numa spaceshuttle altamente avançada e chegássemos lá no nosso tempo de vida, iríamos observar vários Super Homens a competirem entre eles para descobrirem quem voa mais rápido, quem salta mais alto, quem levanta mais carros ou comboios, enfim...a debaterem-se por uma milésima de segundo, ou um miligrama de peso nos seus recordes.
E haveríamos de pensar: 
‘’Estes malucos a matarem-se por uma milésima de segundo, quando eu daria tudo para apenas voar!’’...
Imaginem a liberdade sentida no acto de voar?!
Que importa quem voa mais rápido?
Podem ganhar à vontade, eu apenas queria voar, poder sentir o vento lá de cima e olhar para o oceano, desfiladeiros, montanhas, tudo o que pudesse contemplar das alturas!
Quão pequenos os Super-Homens são e como fútil e sem sentido é a sua busca pela vitória numa competição onde o que realmente importa é o acto, movimento e a atividade em si!
Voar!
E depois caio na real e lembro-me que Kryton existe apenas na banda desenhada e que eu estou aqui preso na terra.
E não consigo evitar pensar que os Super Homens de lá estão para nós ‘’normais’’ e funcionais terráqueos como talvez nós para os mais desvalidos, os portadores de limitações e deficiências motoras, os privados dos seus sentidos, seja a visão, a audição, a fala...
Andamos nós a correr, pular, saltar, chutar uma bola, a cozinhar no ''MasterChef'' ou a cantar nos ''Ídolos'', em busca de uma vitória, de ganhar, de ser o melhor, por uma milésima de segundo, uma grama de açúcar, a puxar ferro para ter o bicípite maior, as costas mais largas, a roupa mais apertada...
What the fuck?
Aos ouvidos de quem é surdo fará sentido matarmo-nos para ganhar os ídolos?
Aos olhos de quem é cego, esforçarmo-nos para ter o maior bicípite?
Aos tetraplégicos importará ganhar a corrida por um segundo a menos?
Que sentido faz assim a competição?
Ganhar? Derrotar? Ser vencedor?
O desporto é uma coisa, a alta competição é outra...
A alta competição como a vejo hoje em dia é entretenimento, já não é desporto.
Desporto é a atividade física que nos permite realizar movimentos funcionais, olear a ferramenta, libertar stress, condicionar fisicamente o nosso corpo enquanto interagimos com os nossos semelhantes (se for desporto colectivo) onde aprendemos, desenvolvemos ou criamos aptidões físicas, psicológicas, individuais e sociais.
Isso é o desporto, uma arte que tal como as demais artes é libertadora e auto-expressiva.
Não pode ser contida em milésimas de segundos ou milímetros de altura, estatutos sociais, carros desportivos, mulheres glamorosas feitas de silicone por mãos habilidosas, golos marcados, penaltis assinalados, lavagens de dinheiro, esteróides anabolizantes, violência das claques, subornos e corrupção.
A vitória não é a parte importante do desporto, é mesmo só isso...uma parte...e quando vira um objetivo compulsivo torna-se vazia...desprovida de significado que faz toda a ideia de desporto perder o sentido.
A competição e rivalidade saudável têm o seu lugar, são a parte do desporto (e da vida) que nos faz testar, pôr à prova e progredir...os adversários temporários são peças importantes em todo este processo de desenvolvimento e não inimigos viscerais que temos de derrotar.
Para ganhar é preciso perder, tropeçar, cair e bater com a cabeça e nesse ponto o desporto pode-nos preparar e fortalecer para encarar a vida com mais jogo de cintura.
Quão pequeno é o homem que se acha grande por conquistar um recorde de milésimos de segundos que irá ser ultrapassado em meses, anos...numa sociedade que apenas tem em vista os resultados materiais e práticos como finalidade e não todo o processo e meios que levam a uma evolução que é por definição temporária, passageira, efémera.
O desporto não serve para nos provarmos melhores que os outros mas sim para nos tornarmos melhores do que somos, melhores pessoas, individual e socialmente, a nível físico e mental.
Toda e qualquer prova ou resultado que podemos concretizar/atingir/tirar do desporto é consubstanciada inevitavelmente com a seguinte conclusão:  
  • Temos, de forma constante, que manter oleada a nossa ferramenta e aperfeiçoá-la...
Quantas pessoas não conheço que me dizem: ''no meu tempo levantava xis kg de supino, ou corria xis km por hora, ou aguentava isto e fazia aquilo''...
E hoje fazem o quê? 
Com essa barriga enorme a única coisa que fazem é compasso de espera pelo ataque cardíaco fulminante que vos vai levar para o desconhecido...
De que importa o que fizeram e atingiram em 1900 de antigamente? Já ninguém se lembra e ninguém quer saber e no fundo não foi importante...
Não é importante atingir recordes ou metas que são temporários...importante é fazer desporto continuamente, por prazer, por saúde, por convívio.
Fizeste muito e agora fazes nada e vives de glórias passadas de um tempo que não volta mais e que é glória para ninguém...
O valor que se põe na vitória e no sucesso desportivo é ilusório e fútil, é fabricado e dado de comer como pão num circo para nos entreter e distrair das coisas que realmente importam, uma cenoura que nos faz puxar a carroça que nem burros com palas nos olhos.
Os milhões do Ronaldo, do Mayweather, do Tiger Woods, do LeBron e do Federer não são desporto, são uma prova vergonhosa de como o entretenimento, a lavagem de dinheiro e o capitalismo tomaram conta das nossas mais básicas manifestações e expressões de liberdade e existência.
Não preciso que o Benfica ganhe, prefiro mil vezes combinar um jogo de futebol com mais 9 amigos em vez de ficar sentado no sofá a ver outras pessoas fazerem desporto por mim...a viverem por mim...
Porquê ver futebol se posso jogar futebol? 
Será que se uma pessoa de cadeira de rodas tivesse a possibilidade de andar iria perder tempo sentada no sofá a ver aquilo que poderia fazer ela mesma?
Seremos como os super-homens de Krypton que se cansaram de voar pelo puro prazer de o fazer?


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