18 de junho de 2018

A Rotina

A rotina é um mal da sociedade de consumo.
Tenho mil e uma coisas que posso fazer para realizar o meu corpo, a minha mente, o meu coração.
Este sentimento de aborrecimento derivado da rotina é algo semeado com o objectivo de nos induzir ao consumo.
E o consumo, presentemente, é nos impingido como aquilo que traz sentido à vida.
Estás cansado ou aborrecido?
  • Talvez precises de um carro novo ou de uma estadia num hotel de 5 estrelas...
  • Um relógio que simbolize estatuto ou de um iphone que te permite fazer mil e uma coisas das quais não vais fazer 20? 
  • Se calhar uma viagem a um destino exótico do qual não vais conhecer realmente nada de genuíno pois vais andar do avião para o transfer para o resort. A piscina é artificial, a comida é igual à europeia e tudo é talhado para ser igual como aqui, com excepção do sol e do ar que são mesmo de lá.
As pessoas estão presas à rotina...mas rotina do quê?
Se calhar têm muito tempo livre e pouca imaginação.
Em pleno século XXI, vivendo no primeiro mundo, temos tudo ao nosso dispor mas frequentemente somos os que mais andamos deprimidos e a precisar de apoio psicológico, com maiores taxas de suicídios e mais infelizes.
Porquê?
Porque vivemos a seguir ideias e razões implantadas e deixamos o nosso sentimento, emoções e coração de lado.
Isolamo-nos com medo do próximo...medo que nos queiram roubar, magoar, desejando competir para chegar mais longe que os outros, de pisar para não ser pisado, trabalhar para ganhar mais e ostentar mais, uma vida sem sentido.
Temos tudo à nossa volta, o sol nasce e aquece-nos todos os dias, a água jorra das nossas torneiras quente ou fria, a internet permite-nos estar em contacto com qualquer pessoa a qualquer momento em qualquer lado do mundo.
Permite-nos aprender coisas novas, dançar, tocar instrumentos, ler livros, tudo.
Não há limite para aquilo que podemos fazer com 30 minutos do nosso tempo.
Senão vejamos:
Não têm tempo para fazer desporto?
Encostem o carro e comprem uma bicicleta para ir para o trabalho.
Vão se sentir mais dinamizados, com mais energia, mais vivos.
Saíram do trabalho e chegaram a casa cansados?
Dediquem-se a aprender a cozinhar comida saudável, bom combustível aumenta a prestação do nosso motor, faz-nos ficar mais despertos, mais enérgicos e com maior vitalidade, deixem a alimentação ser o vosso remédio, larguem os anti-depressivos.
Depois do jantar têm 30 minutos disponíveis?
Leiam um livro, vejam um documentário, escrevam as vossas ideias, comecem um blogue.
Aprendam a tocar um instrumento, a cantar ou dançar, a música liberta e quem canta os seus males espanta.
Querem convencer-nos de que só os ‘’dotados’’ é que devem dedicar-se à arte, os comuns mortais não devem soltar a voz ou o corpo pois isso seria uma grande vergonha, não têm o talento ou a técnica para fazer um brilharete.
Então mas Deus quando nos criou não deu voz e movimento a (quase) todos?
  • Só porque não preenchemos requisitos elaborados por supostos peritos, não podemos usar e dispor do nosso corpo como queremos?
Cantar, dançar e tocar faz parte de nós, é ritmo intrínseco, cortar com isso é cortar com a relação com o nosso próprio corpo, o nosso ser, com a nossa natureza.
Querem-nos castrar para depois cobrarem aulas de canto, aulas de música ou dança, mas eu não quero compor sinfonias nem aprender a tocar violino.
Quero soltar a voz, quero sentir ritmo a fluir das minhas mãos no bater de um tambor, de um djambé, nas cordas de uma viola que hoje se compra no Lidl por 20€.
Eu canto porque gosto, porque isso me faz sentir bem, mal, melhor ou pior, tudo isso são adjetivos que não medem a minha alegria, apenas as expetativas dos outros que eu não procuro satisfazer.
Quando fazemos algo temos de o fazer porque o queremos, porque isso nos dá prazer ou completa, não pelo que os outros pensam ou querem.
Não deixes que o medo te impeça de dançar na lua já elucidava a frase na tampa do iogurte que alguém comeu nos meus tempos de faculdade.
Ainda hoje essa frase me acompanha.
Mas não...criamos a nossa rotina, ou deixamos que a criem por nós e sentamos no sofá para assistir aos ídolos onde só os dotados e fisicamente apelativos (segundo os padrões contemporâneos), atingem o sucesso.
Os gordos e feios são logo eliminados, os sem talento são enxovalhados, rimos deles e admiramos os altos, bonitos, com a voz doce.
Não sei dançar e não sei mexer-me ao ritmo de melodias,  pelo menos não como os dançarinos dos clips de música.
Mas isso é normal não é?
Afinal eles fazem disso vida.
Posso ser meio desengonçado, mas tenho 2 pernas e 2 braços, o equilíbrio natural que a natureza me deu, porque não aprendo a dançar?
Hoje pelo Youtube aprende-se tudo, de graça, em minutos.
Estas são as coisas boas da internet e da tecnologia, é isto que temos de aproveitar e não andarmos a perder tempo a criar uma imagem e um perfil nas redes sociais de alguém que não somos mas que queremos que os outros achem que somos.
A tecnologia deveria servir para nos aproximar, não para nos isolarmos nos nossos smartphones ou pc’s.
Convencemo-nos de que não temos jeito e que não nascemos para fazer estas coisas e entregamo-nos à alternativa de viver isso através dos personagens da televisão.
  • E o romance? 
  • O amor? 
  • Os sentimentos?
Também vivemos isso através das histórias dos outros?
Somos mais do que uma massa amorfa que trabalha para auferir um ordenado por sua vez gasto no consumo de produtos.
Somos pessoas, precisamos de mexer, falar, conviver, amar, sentir, viver.
Rotina é coisa que põem na nossa cabeça, criada para nos fazer comprar coisas que supostamente nos tiram dela...mas é um ciclo, voltamos sempre ao mesmo ponto porque a mera adquirição de bens materiais não nos preenche.
O que nos falta verdadeiramente?
Falta-nos mudar a forma como vemos a vida e como nos relacionamos connosco mesmos e com o mundo ao nosso redor.
Falta substância, falta liberdade para sentir. 
As nossas relações com os outros muitas vezes são espelho da nossa relação com nós mesmos.
Como nos tratamos, estimamos e valorizamos?
Investimos em nós, no nosso corpo, na nossa mente, nas nossas emoções?
Tiramos tempo para nos desenvolvermos e nutrirmos?
Criamos laços de amizade verdadeiros, somos honestos para com os que nos rodeiam?
Eu raramente me enfadonho, a minha mente voa e viaja, conhece e expressa-se:
  • Em textos de blog, 
  • Músicas que faço ou letras que escrevo,
  • Textos ou documentários inspiradores que leio e vejo,
  • Fotos que tiro do meu filho e que depois trabalho no computador para fazer álbuns ou mostrar a amigos, 
  • Filmes que gravo de mim a andar de skate com amigos ou sozinho, 
  • Desenhos de graffitis que um dia quero pintar na parede,
  • O limite é a minha imaginação, este blog é prova disso e a verdadeira arte está dentro de nós, não nas galerias, conservatórios ou museus.
No entanto estamos presos na rotina.
  • Rotina de quê? 
  • Da nossa mente? 
  • Da nossa mediocridade?
Quem tem filhos e tempo para os ver crescer não tem rotina.
Cada dia é uma aventura, uma coisa nova a aprender, uma excitação.
Nós já fomos crianças mas ao crescer perdemos essa alegria, essa disposição, deixámos que a sociedade de consumo nos convencesse da inevitabilidade da rotina.
As crianças vivem sem se preocupar com o que os outros pensam ou dizem, querem ir à praia e não precisa de ser em Cuba, pode ser em Caxias, se houver sol, calor, água e uma bola então o dia é vivido como se fosse o último, não se deixa um pingo de energia por usar.
Andam de bicicleta seja da Decathlon ou da melhor marca do mercado, desde que tenha rodas e ande, elas desfrutam e vivem, não existe rotina, cada dia é um mundo de possibilidades.
Conhecem e estabelecem contacto entre elas com a maior das facilidades, não pensam se a outra criança é pobre, rica, preta, branca, alta, baixa, gorda, feia, isso não interessa.
É o sentimento e a intuição que imperam e quando a energia entre elas bate certo nasce uma amizade e compreensão, brincam e riem e dão sentido à sua vida e aos seus momentos.
Nós nem conseguimos bater na porta do vizinho e pedir para ele baixar a música, temos de chamar a polícia.
Estamos doentes.
Rotina?
Só se for na tua cabeça, o meu dia é um interminável desenrolar de coisas novas para viver, para aprender e de outras tantas antigas que tenho gosto em recordar!

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