14 de janeiro de 2019

Uma revelação Natalícia

Um vigilante dum condomínio não de luxo, mas de gente com posses acima da média, foi escalado para trabalhar no dia de Natal.
Este condomínio tem serviço de vigilância 24h por dia, 7 dias por semana, 365 dias por ano (+1 nos bissextos).
Calhou a fava do dia 25 a este jovem que recebeu algumas prendas por parte de moradores, um gesto de gratidão para com o serviço efectuado ao longo do ano e em especial nestas datas festivas tradicionalmente passadas com a família.
Estas prendas são para dividir pela equipa inteira (ou assim deveria ser), que é composta por 3 elementos.
Um dos moradores mais abastados, possuidor de alguns carros de alta cilindrada (Lamborguini, Porsche, Mercedes, Ferrari, etc) ofereceu uma garrafa de whisky a dividir pelos 3, especificamente pelos 3, pois no embrulho referia ''para a equipa de vigilância''.
Diz o ditado que a cavalo dado não se olha o dente, sabedoria comprovado pelos tempos e a que se soma a abstinência pessoal deste profissional. Fica assim a garrafa a dividir por 2 pessoas.
Partindo do principio que estes profissionais não podem beber em serviço, põe-se a questão: 
Como dividir tamanha oferta?
E não sejamos hipócritas ao ignorar que uma pessoa com tais posses bem se escusava de lhes causar tão grande dilema...ou oferecia 3 garrafas ou não oferecia nenhuma...assim passa por somítico.
Já habituado a este ''embrulho'' que o morador abastado oferece todos os anos pela época natalícia, ele não fez caso, mas esta aparente contradição intensificou-se quando o mesmo vigilante abriu a prenda oferecida por uma moradora muito idosa, muito mesmo, que mora no mesmo prédio e possui apenas uma viatura, um Citroen C3 com mais de 10 anos.
Esta prenda consistia num cartão festivo desejando um feliz Natal, escrito à mão e acompanhado de uma simpática nota de 20€, prenda essa que coube a cada um, todos receberam um cartão e uma nota.
O preço do Whisky oferecido pelo morador abastado ronda sensivelmente os 20€, nesse aspecto a prenda tem o mesmo valor monetário, com a diferença de ser apenas uma prenda para os 3.
Mas não foi esta a revelação natalícia, isto foi o enquadramento.
Não tendo este vigilante recebido o cartão em mão, fez questão de agradecer pessoalmente o gesto, assim que se cruzasse com a querida senhora. Coisa que aconteceu nesse dia de Natal, pois a mesma entrou com o carro na garagem que o vigilante seguiu até ao lugar de estacionamento. 
Quando a senhora saiu do carro ele agradeceu pessoalmente a atenção e a resposta que recebeu deixou-o estupefacto:
''Eu é que agradeço você estar aqui hoje...''
Quando pensamos que já ouvimos tudo e nada nos pode surpreender...
Ali estava ele a agradecer o dinheiro e cartão que recebeu e acabou por ouvir que ele é que tem razões para ser alvo de agradecimentos...não estará isto trocado?
Não...está correcto...nós é que estamos trocados, o valor que atribuímos à vida e às coisas que nos rodeiam está trocado.
Não se trata de garrafas, cartões ou notas, trata-se de um dia festivo significativo que envolve passar o tempo com aqueles que nos são mais próximos e aquele vigilante estava a ser privado disso.
Não há dinheiro que pague os momentos com a família e amigos, não há dinheiro que pague sermos privados do nosso dia de Natal, não pelo seu significado cristão mas sim pela sua tradição cultural que envolve o referido anteriormente.
Dia de comunhão, amor e calor, aquela senhora compreendia isso e o agradecimento dela foi uma revelação.
Revelação de que temos valores falsos, de competição, de ter mais do que o necessário, de hierarquizar as pessoas pelas riquezas materiais que têm ou aparentam ter, pela sua aparência, beleza ou suposto estatuto...
Está certo que o morador abastado é um unhas de fome, mesmo não havendo obrigação da parte dele de oferecer prendas, já que o faz, que seja algo que possa ser divisível pelos 3 ou uma coisa para cada um, da forma como fez pareceu muito impessoal, um costume social a ser cumprido.
Mas mesmo que ele desse 10 garrafas a cada um, não é o valor monetário que torna o seu gesto louvável, é a intenção que está por detrás e o sentimento desse gesto. O vigilante também estava a ignorar esse sentimento ou a desvalorizá-lo, sobrepondo o seu interesse egoísta pela prenda em si e sentindo-se indignado quando a mesma não correspondia aquilo que ele estimava ser a medida da riqueza alheia.
A nota de 20€ calha mesmo bem, mas a frase vale muito mais...trocaria todas as garrafas e queijos e notas por palavras dirigidas pessoalmente de cada morador que intencionasse oferecer uma prenda.
As prendas e o o seu respectivo valor monetário não compensam as horas que não passamos com quem nos é querido, como o Eduardo Marinho disse, valemos pelo nosso carácter, conduta, temperamento, sentimentos que produzimos e causamos em nós e nos outros, não pelo que temos.
Esta foi a minha revelação natalícia e o próprio facto de estar a desejar prendas e a estabelecer uma relação directa entre carros, posses e valor monetário da prenda é mais uma prova do quanto estamos embrenhados e equivocados em relação ao que é o verdadeiro valor das coisas.

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