Todos já
apanhamos, em algum momento, aquelas pessoas que nos despertam a atenção seja
pelo seu poder de atracção, ou sua aparência caricata.
Situação mais sujeita a ocorrer nos transportes públicos, momento em que temos forçosamente de esperar e onde pouco mais havia a fazer senão observar as pessoas que tínhamos à nossa volta, pois hoje em dia com os telemóveis ficámos tão absorvidos na tecnologia que já não olhamos para a cara de alguém.
Situação mais sujeita a ocorrer nos transportes públicos, momento em que temos forçosamente de esperar e onde pouco mais havia a fazer senão observar as pessoas que tínhamos à nossa volta, pois hoje em dia com os telemóveis ficámos tão absorvidos na tecnologia que já não olhamos para a cara de alguém.
Mas voltando ao assunto, muitas dessas pessoas que despertam a nossa atenção têm atitudes
que nos surpreendem por não se coadunarem com a sua aparência e expetativas que
criamos sobre elas.
A verdade é
que todos usamos máscaras. A minha é sisuda e séria, designada de ‘’careta’’ e por vezes ‘’arrogante’’.
É a máscara
que ponho quando estou importado com o que se passa à minha volta, quando quero
observar e ponderar, por vezes até julgar determinada pessoa ou situação.
Mas quando estou
despreocupado e simplesmente ‘’a cagar’’ para o que se passa uso
uma máscara bem mais efusiva, espontânea e ruidosa, que as pessoas designam de
‘’boémia’’, ‘’divertida’’, ‘’de bem com a vida’’ e num tom mais pejorativo, ‘’libertina’’.
Acontece que
algumas das atitudes das pessoas que inicialmente nos despertam o interesse
derivam de uma máscara que implora atenção, afirmando-se de forma rude ou
revelando pormenores da sua via privada, geralmente através de um telefonema
onde fazem questão de que o público (pessoas com quem partilham o sistema de
transportes, por exemplo) tome conhecimento do que está a ser
conversado.
Por exemplo,
não é incomum jovens revelarem pormenores acerca da sua sexualidade, de
atitudes agressivas que tiveram numa qualquer rixa ou confusão ou de coisas
que supostamente fariam se sicrano ou beltrano os tivesse ofendido de
determinada maneira.
Isto provém
de um ego a pedir reconhecimento e a tentar se afirmar, o que resulta
provavelmente de alguma falta de confiança ou fraco sentido de valor próprio,
mais tolerável em idades jovens, mas não exclusiva às mesmas.
Neste
desenrolar de conversas ou atitudes a pessoa que nos captou a atenção começa a
desiludir-nos, com palavras e ideias proferidas ou demonstradas que não
atribuíamos à sua imagem/aparência que de início nos cativou.
Ficamos
desiludidos e a pensar...como as aparências enganam!
Seremos
rápidos a criar expetativas e ilusões na beleza alheia?
Possivelmente...mas
não é esse o caminho que quero tomar.
Recentemente
ganhei coragem para fazer muitas coisas sozinho...coisas que a sociedade ou o
colectivo nos diz que devemos fazer acompanhados.
Não é uma
regra escrita, mas ir para uma esplanada sozinho, ir à praia ou ao cinema
sozinho requer alguma dose de maturidade e coragem, bem como o desprender de
ideias que nos são inculcadas desde crianças:
- ‘’O que vão os outros pensar?’’
- ‘’O que diz isto de mim?’’
- ‘’Será que sou tão desinteressante que não consigo arranjar companhia para fazer estas coisas?’’
A verdade é
que estamos mesmo melhor sozinhos do que mal acompanhados e não precisamos de
estar sempre acompanhados para fazermos as coisas que gostamos.
Isto requer
um dominar do nosso ego, uma dose de humildade e auto-estima (maturidade) para
reconhecermos que não importa o que pensam de nós quando nós sabemos quem somos e somos quem queremos ser e quando estamos a fazer algo que gostamos num momento em que, ou não havia boa
companhia (agradável) disponível para essa atividade, ou simplesmente não
nos apetecia estar com mais alguém.
Quando a
nossa companhia é boa (estamos bem connosco) ela muitas vezes basta-nos...
- Será que gostam de vocês mesmos (serão confiantes) ao ponto de não se sentirem mal por irem ao cinema sozinhos?
- Ou será que o silêncio vos incomoda e precisam de preencher esse espaço com alguém...independentemente de quem for?
Não perdendo
o fio à meada, quando vejo estas pessoas que me cativam e que não conheço fico
a pensar:
- ‘’Será que estou a isolar-me’’?
- ‘’Será que devo conhecer estas pessoas e convidá-las para ir ao cinema comigo?’’
- ‘’Não estarei a virar um bicho-do-mato, frio, miserável e afogado em mágoas, dessensibilizado e cicatrizado demais para me envolver?’’
Depois
recebo este alívio que toma a forma de uma onda avassaladora mostrando aquela máscara desagradável da pessoa inicialmente cativante, essa desilusão
que sabe a libertação por saber que estou bem como estou, que não tenho que ter
dúvidas nem pressas, que preciso de encontrar o meu chão e a minha base
primeiro, sem saltar em comboios que estão de partida, só porque estão de saída
e eu tenho medo de o perder e ficar sozinho à espera na estação.
Qual é o
objetivo de apanhar um comboio? Não é chegar a um destino?
Quero olhar
para o horário e planear tudo com calma e tempo para não ter de sair a meio da
viagem...