18 de novembro de 2019

A corrida de ratos (ou a grande ilusão da sociedade)

Vou comparar neste texto uma pessoa que pertence a um agregado familiar que aufere um rendimento médio/alto e outra que aufere perto do rendimento mínimo.
A primeira pertence a 15% dos agregados familiares que declararam auferir de 1000 a 3500€ brutos mensais, dados de 2017, a outra pertence a 83% dos agregados familiares que declararam auferir até 1000€ brutos (também mensais).
Vamos ver como é a vida e os gastos deles:
  • O Mínimo João conduz um Fiat Punto com quase 20 anos que lhe custou 850€ e o Médio/alto Miguel conduz um BMW 320d do ano passado, com uma prestação de 500€ mensais por 8 anos,  
  • O Mínimo João tem 2 filhos, o Médio/alto Miguel tem um, os filhos do primeiro andam numa escola pública onde além dos livros pouco mais têm de pagar, enquanto que o filho do segundo estuda num colégio privado, com uma mensalidade de 400€,  
  • O Mínimo João arrenda um T2 a 20km do centro de Lisboa por 425€ mensais e o Médio/alto Miguel comprou um T2 a 8km do centro de Lisboa, onde paga 600€ de prestação mensal,  
  • O Mínimo João compra, para si e para os seus, roupa na Primark feita numa fábrica de um país do 3º mundo onde os empregados além de receberem menos de 60€ mensais e trabalharem mais de 12h diárias (das quais só 10h é que são legais), são tratados com porrada e insultos para incentivar a produtividade,  
  • O Médio/alto Miguel compra roupa na Timberland, Pierre Cardin e Lacoste, para si e para os seus, feita nas mesmas fábricas e nas mesmas condições,  
  • O Mínimo João passa férias na casa de familiares no centro ou noutra região do país, o Médio/alto Miguel visita resorts em Cuba, Cabo Verde ou República Domicana, mas também gosta de passar 5 dias numa capital europeia ou numa estação de Ski dos Pirenéus ou Suíça,  
  • O Mínimo João faz compras no Pingo Doce ou Minipreço no valor de 350€ mensais e o Médio/alto Miguel além das compras do Pingo Doce ou Continente faz questão de adquirir alguns artigos de qualidade superior como queijos e vinho no El Corte Inglés, somando perto de 750€ mensais,
  • O Mínimo João tem um relógio da Swatch de 80€ que lhe diz as horas...o Médio/alto Miguel usa um da Hamilton de 600€, que também lhe diz as mesmas horas,  
  • Telemóveis, portáteis e outras tecnologias seguem o mesmo padrão, o Mínimo João usa marcas como Samsung ou Acer, o Médio/alto Miguel prefere Iphones e Macintosh da Apple, todos mandam mensagens e fazem chamadas, bem como outras funções, onde mais de 60% dos aplicativos não chegam a ser utilizados,
A lista continua, os artigos são distintos nos preços e no estatuto social associado, mas servem a mesma função e são em tudo o mais idênticos.
As respetivas cônjuges auferem sensivelmente menos que os seus pares (a lei de igualdade salarial aplicada ao género ainda não vigora), a esposa do Médio/alto Miguel tem carro próprio e a do Mínimo João anda de transportes públicos.
De facto os dois conseguem fazer as mesmas coisas, seja comer, ter um tecto para morar, comprar roupa e outros acessórios, passar férias, pôr gasolina no carro, etc, mas um fá-lo com mais estilo e conforto que o outro, o que lhe confere outro estatuto, aceitação perante terceiros e ''melhor'' lugar na sociedade.
Vivemos incentivados pela compra de bens e serviços que nos deverão trazer maior comodidade e conforto e tomamos isto como sinónimo de felicidade e realização, mas a verdade é que muitas vezes isto é feito à custa de mais horas e responsabilidades laborais que nos afastam de uma vida social, de tempo de lazer para estar com os que nos são próximos e de tempo importante para desenvolvermos o nosso físico, mente, espírito, etc.
No fundo tudo o que se compra é mais confortável e traz um carimbo de estatuto, mas no fim do dia não acrescenta realmente nada de valor na nossa vida ao não tocar nos aspetos acima descritos:

  • Um Fiat Punto chega onde um BMW chega, 
  • Os relógios baratos também dizem as horas,  
  • Os telemóveis permitem falar e mandar mensagens,  
  • E a comida cara não é necessariamente sinónimo de comida saudável.
Compra-se estatuto mas perde-se tempo de vida e noção da realidade:
  • De que adianta pôr um filho num colégio privado se não temos tempo para estar com ele e o ver crescer?
  • Vai aprender mais e melhor, mas se tivéssemos tempo extra poderíamos dar mais e melhor pessoalmente, sem entregar isso ao cuidado de profissionais de ensino privado.
Compensamos esta ausência pessoal com presentes mais caros mas não é o mesmo...e eu bem vejo o quanto as crianças não ligam a isso, pois cada brinquedo novo, caro ou barato, dura minutos ou horas de entusiasmo, pois são vagos substitutos do que realmente as preenche e do que realmente precisam.
  • Perseguimos o sonho de ganhar mais dinheiro para ter melhor vida, 
  • Neste processo perdemos tempo de vida, tempo que poderia ser ocupado com momentos significativos e plenos,  
  • Ganhamos dinheiro para comprar coisas mais caras que nos vão permitir fazer as mesmas coisas (saciam as mesmas necessidades) que faríamos com menos dinheiro,  
  • Acabamos por ganhar mais para poder gastar mais, simplesmente. 
Não consigo deixar de me sentir ludibriado, enganado pela minha vontade de ter mais, de ganhar mais. Tudo à minha volta me incentiva a isso, vendem-me um sonho de posses materiais que me trarão felicidade mas quanto mais tenho, mais vazio me sinto e olho para trás e nem sei onde gastei esse dinheiro extra.
Muitas vezes as coisas mais caras não valem o dinheiro que pedem por elas e são feitas nos mesmos países e fábricas que as mais baratas...pagamos apenas por nome, estatuto, ilusão que faz o mundo girar.
Precisamos de ganhar mais ou podemos ter mais se gastarmos menos ou utilizarmos melhor o nosso dinheiro?

  • Precisamos de ter carro ou moramos numa zona com transportes acessíveis que nos permitem andar mais, coisa que provavelmente necessitamos para a nossa saúde e nos permite conviver com pessoas, com tudo de bom e de mau que isso traz, 
  • Precisamos de comer fora/comprar comida feita, ou será melhor para a nossa saúde cozinharmos a nossa própria comida e levarmos para o trabalho em Tupperwares?  
  • Precisamos de morar no centro de Lisboa ou podemos ir para uma zona mais barata mas bem munida de transportes para a capital, tipo o comboio?  
  • Precisamos de todo este exército de máquinas e tecnologia que faz tudo por nós e nos deixa retardados, controlados e alienados, ou podemos prescindir de maior parte deles, passar menos tempo atrás de um ecrã a falar com pessoas virtuais e a conviver com pessoas reais? 
Ou seja...
Damos voltas e voltas, corremos atrás de dinheiro e disponibilidade financeira para podermos fazer ''o que queremos'' e ser ''felizes'', ter uma vida confortável e poder providenciar o mesmo aos nossos, mas o tempo passa nesta correria e no final acabamos por simplesmente adquirir produtos, consumir esquecendo o motivo pelo qual trabalhámos e poupámos, não fazendo o real uso desses bens por estarmos cansados demais para poder usufruir deles ou por não termos simplesmente tempo para o fazer. 

Isto não é sinónimo de felicidade ou realização ao fim do dia, mês, ano, vida.
E o sistema económico está tão bem montado que à medida que progredimos na escada social e auferimos melhor rendimento o nosso padrão de consumo também se eleva e acabamos por comprar coisas mais caras, embora as nossas necessidades biológicas, físicas e emocionais sejam as mesmas, continuamos endividados e sem dinheiro, e ao fim do dia, mês, ano, vida a felicidade e a realização continuam sem chegar.
Olhamos para trás e pensamos...qual foi a parte que me escapou?
Começamos com boas intenções e seguros do nosso propósito, mas pelo meio tudo se perde e entramos no labirinto dos números, onde cada desejo tem o seu custo e andamos a fazer contas e contrair empréstimos de empréstimos, a tentar esticar o dinheiro para ver se cobrimos tudo, mas fica sempre alguma ponta solta.
Nunca iremos ganhar este jogo...é como um casino, o sistema ganha sempre.
A única solução é não jogá-lo.

Mensagens populares